O território para que/m?

19 Ene O território para que/m?

Un artigo de Matías G. Rodríguez na Revista Kardo


Viajei há pouco a Lisboa, para acudir a um congresso. Após corroborarem o milheiro de possibilidades para eu viajar a Madri e Barcelona (mas não a Lisboa), reservara os meus bilhetes de comboio para Porto, mais uma vez em horários absurdos que deixam transluzir, bem uma frustrante mala fé, bem uma espetacular incompetência. Após preferirem inclinar-me pela segunda opção, li no jornal os últimos anúncios em relação ao AVE, pelos quais podemos supor que nos próximos anos será possível deslocarmo-nos a Madri em naves espaciais. “Casualidade”, quis pensar.

“Pura casualidade”, voltei pensar, já no comboio que me levaria a Porto, enquanto buscava algum lugar não molhado no que depositar a minha mala. Mirei com inveja o fantástico estado de manutenção do comboio que efetua a “Ruta por los Jardines de la Camelia” [sic], e voltei ao meu assento. De jeito nada surpreendente, chovia sem trégua; ainda noite fechada, o comboio saiu da estação de Guixar.

Com as primeiras luzes, espertaram também aqueles que têm a mala sorte de morar a carão do caminho-de-ferro. Estado nebuloso de recognição: eu reconhecia todo o que via trás da janela, embora não saberem em verdade por onde passava. Sucediam-se os hórreos de ladrilho visto, as cabanas de chapa, toda uma série de cancelas multiformes e piscinas cobertas com plásticos imemoriais. Ah, isto é a Galiza, pensei, a verdadeira Galiza da que falam os jornais e as exposições de NovaGalicia, aqui está. Para a minha surpresa, os donos das respetivas piscinas e cães melancólicos, pareciam não se horrorizar de puro espanto. Porém, aquilo no que eles semelhavam nem reparar, enchia a minha cabeça de etiquetas e análises. O encanto da miséria própria, pensei (ou mais bem pensou o meu católico subconsciente, tão propenso a se banhar na sua própria imundícia). Talvez tiveram razão Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horte e Maria Velho da Costa, quando nas Novas cartas portuguesas escreviam:

A repressão perfeita é a que não é sentida por quem a sofre, a que é assumida, ao longo duma sábia educação, por tal forma que os mecanismos da repressão passam a estar no próprio indivíduo, e que este retira daí as suas próprias satisfações.[1]

Semelhavam as escritoras predizer a deriva disso que Habermas chamava, um tanto ingenuamente, “esfera pública”, isso que na Galiza se traduz numa mistura esquizoide de folklorismo simpático e sistemática ridiculização, começando pelos médios públicos (que começam e rematam aqui) e seguindo pelos pequeno-burgueses (correios e vozes que semelham vir de Burgos, mas cuja origem galega se pode detectar ao localizarem neles uma infinidade de artigos sobre festas gastronômicas escritos em castrapo). O desporto nacional galego, claro está, é o auto-ódio.

Perguntava-me eu se a obsessão pelo chamado “feismo” não poderia ter uma origem semelhante (embora esta acostume a transluzir as melhores das intenções), quando ocorreu algo fascinante: cruzei a fronteira. Da terra do “feismo”, passava de súpeto ao solar do “génio dos lusíadas”. Ficara eu um bocado despassarado, em parte por terem caído preso dessa fascinação tão nossa cara a depressão, e não saberia dizer se em realidade transcendera já a esse estádio superior que se supõe que havemos de perceber enquanto abandonamos a feia miséria do pais, mas o certo é que semelhava a chuva molhar igual. Recordei então a poesia do Teixeira de Pascoaes, invejoso eu ante a querência portuguesa pela sua paisagem:

Quem atingir as alturas do Marão, o seu píncaro mais elevado […], avista, para as bandas do nascente, o escuro e montanhoso Trás-os-Montes; e, para os lados de noroeste e nordeste, o Minho viridente. Depois, aproximando o olhar, descobre, nesta mesma direção, as terras vizinhas do Tâmega que participam de Trás-os-Montes pelo acidentado do terreno e do Minho pelo verde e alegre colorido dos seus vales e pradarias […]. O doloroso drama transmontano e o bucólico idílio minhoto fundem-se, na região do Tâmega, numa paisagem original que é o próprio busto panteísta do génio dos lusíadas […]. Entre-Douro-e-Minho é o coração de Portugal casado ao sentir ingénito da Raça.[2]

Para a minha desgraça, a minha fugaz e romântica evocação de superiores autoestimas viu-se truncada de jeito violento. Um homem, que diz se chamar Diogo, entra no meu vagão e começa a pedir esmola. Chegado à minha altura, pergunta apenas: “Espanhol?”. “Galego”, resposto. “Ah, bom, uma mistura logo”. Diogo ria-se, enquanto a minha crise se agravava. O certo é que já não sabería dizer se a Galiza se fiz esquizofrénica de tanta opinião cruzada ou bem, simplesmente, porque não é mais do que uma enteléquia, sobre da que nos obsedamos em construir um monstro a base de pranchetas. Galiza terra de celtas, suevos e choromicas, Galiza terra de pimentos, grelos e patacas, Galiza que se quer muito, Galiza que não se quer nada, Galiza de gente “autêntica”, Galiza terra de dízimos e tédio, Galicia [e aparece um senhor com uma gaita], Galiza a reboque de sim mesma, Galiza terrivelmente sentimental [3] , Galiza (em fim) como entranhável pátria de domingo (porque em Londres e Berlim me tomarão por espanhol, mas, ai!, os hórreos da minha aldeinha…). Baixo do cruze de suspiros de Espanha (da Galiza, quis dizer -páginas como Canibalismo urbanístico, tamén chamado Feísmo, preocupam-se de ressaltar esta conexão intrínseca entre a fealdade e a Galiza, em especial pelo que respeita ao rural-), fica um “território”, ou mais bem muitos?. Semelha difícil “ordenar” um território esquizofrénico.

Enquanto o comboio seguia a avançar cara a estação de Campanhã, perguntava-me eu: existe realmente o feismo? E, de serem assim, estende-se de jeito fatal pelo território ou, mais bem, reside apenas no olho de quem o julga desde o exterior? Existe um problema quando este não é considerado como tal por parte de quem supostamente o sofre? Há alguma diferença entre a projeção-feismo e a projeção-“génio dos lusíadas”? Se a terra há de ser para quem a trabalha, e o território para quem o vive, o que faremos nós, tão inclinados a julgar com olhos de esteta o território dos demais? Quem estabelece os limites das paisagens, senão quem as habitam? É o gosto um critério crítico perante o território? E, nesse caso, o gosto de quem? Fiquei um tanto abrumado, e mais com dor de costas. “Tenha um bom dia, galego!”, diz-me Diogo.

 

[1] Barreno, Maria Isabel, Horte, Maria Teresa e Velho da Costa, Maria: Novas cartas portuguesas, ed. Ana Luísa Amaral, Dom Quixote, Lisboa, 2010 [1ª, 1972], pp. 198-199.
[2] Pascoaes, Teixeira de: Arte de ser português, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007 [1ª, 1915], pp. 67-68. Devo a mui oportuna rememoração desta referência a Teresa Jorge Ferreira (IELT – Univ. Nova de Lisboa), quem participou no mencionado congresso com uma comunicação titulada “Landscape and saudade: convergences between the representations of Portugal and the self in Teixeira de Pascoaes’ poetry” (Poetics of Selfhood: Writing and Other Constructions, Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa, Lisboa, 3-5 Março 2014), e com quem tive a sorte de manter uma proveitosa conversa. A propósito da paisagem na poesia de Pascoaes, cf. também Roma Nunes, Elsa de Jesus: A transfiguração da paisagem na poesia de Teixeira de Pascoaes e Miguel de Unamuno, Universidade de Évora, Évora, 2007.
[3] Sobre da imagem sentimental que se construiu em torno da Galiza, cf. Miguélez-Carballeira, Helena: Galicia, A Sentimental Nation. Gender, Culture and Politics, University of Wales Press / Gwasg Prifysgol Cymru, Cardiff, 2013. Por volta deste ano, a obra será publicada em português pela Através Editora.

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